Sexo anal seguro: orientações essenciais de uma coloproctologista

O sexo anal ainda é um tema cercado por dúvidas, receios e até preconceitos. Porém, falar sobre ele com naturalidade é fundamental para garantir saúde, informação e segurança. 

Na prática clínica, é comum que pacientes busquem esclarecimentos sobre como realizar a prática de forma confortável, higiênica e com menor risco de lesões ou infecções. 

Criei um guia completo com orientações baseadas em evidências e em experiência médica especializada: a coloproctológica, mas sempre reforçando: respeito aos limites, consentimento e informação são pilares indispensáveis. Continue lendo e confira.

Sim! O sexo anal pode ser muito prazeroso.

A região do canal anal, localizada logo acima da borda anal, é rica em terminações nervosas (inervação dupla autonômica e somática), sendo considerada uma região erógena, pois uma vez estimulada de forma  adequada pode propiciar excitação e prazer.

O ânus não é autolubrificado

Diferentemente da vagina, o ânus não produz lubrificação natural. Isso significa que o uso de lubrificantes são essenciais para evitar dor e micro lesões.

É proibido lubrificantes que contenham anestésicos, fiquem atentos. 

Opte por lubrificantes à base de água ou  de silicone, porém estes últimos devem ser  utilizados com cautela, pois podem danificar preservativos de alguns materiais. Por isso, quando houver dúvida, prefira lubrificantes hidrossolúveis.

Por que isso importa?

As microfissuras (pequenas lesões que podem ser ocasionados no momento da penetração), podem facilitar a entrada de bactérias e vírus, já presentes na nossa microbiota intestinal, ou transmitidos pelo parceiro, aumentando o risco de infecções sexualmente transmissíveis (ISTs): HIV, sífilis, gonorreia, clamídia , condiloma, dentre outros.

Preservativo sempre, mesmo em casal estável

O sexo anal é uma das práticas com maior risco para transmissão de ISTs. O preservativo é indispensável, mesmo quando a relação ocorre entre parceiros fixos.


Além disso, é recomendável trocar o preservativo ao alternar entre penetração anal para vaginal para evitar infecções ginecológicas.

Sexo anal seguro: evite objetos improvisados

Respeite os limites do seu corpo. Se necessários, utilize somente acessórios adequados, feitos com materiais seguros e com base alargada, para evitar acidentes, como retenção de objetos no reto, algo mais comum do que muitos imaginam na prática médica. Da mesma forma, a lubrificação é essencial. 

Respeito, relaxamento: existe o momento certo! 

A musculatura anal (esfíncteres anais e assoalho pélvico) são incrivelmente forte e resistentes, principalmente o esfíncter interno do anus, por sua capacidade de contração constante e involuntária, participando da nossa continência anal (capacidade de reter fezes e gases).  Ele não se “abre” espontaneamente, portanto,  é preciso tempo, preparo, delicadeza para que ocorra seu relaxamento. Lembre-se: o anus é “fechado”, mas não “trancado”.


Tensão excessiva, medo, insegurança  interferem nesse processo, podendo aumentar o risco de dor e lesão, além de tornar a relação não-prazerosa. O diálogo entre os parceiros, preliminares, carícias  ajudam a ajustar ritmo, profundidade e pressão.

Se houver dor intensa, sangramento ou sensação de laceração, o ideal é interromper a prática e observar a evolução dos sintomas, e se necessário procurar um coloproctologista.

Higiene (“enema  retal”): uma opção pessoal

A opção pós duchas internas deve ser de escolha pessoal. Logo acima do canal anal, se inicia o reto, que geralmente está vazio, caso a pessoa já tenha tido uma evacuação durante o dia.  A limpeza externa com banho comum é suficiente para a maioria dos casos de sexo anal seguro.

Porém, muitos optam pela ducha interna para garantir uma sensação de limpeza mais profunda e diminuir a ansiedade. Quando utilizado, deve ser de forma suave, com pouco volume e água morna.

Menos é mais: a mucosa anal também pode sofrer processos inflamatórios pelo volume, pressão e temperatura da água.

Deve-se evitar esse hábito com frequência, pois pode também alterar a composição da microbiota intestinal, causando disbiose e interferir no mecanismo evacuatório fisiológico. 

Cuidado com as posições

Apesar do nome “reto”, existem angulações entre o canal anal e o reto, e mesmo no próprio reto. Por isso, algumas posições são mais “favoráveis” que outras de início, até que ocorra um relaxamento  adequado da musculatura.

Algumas posições aumentam o controle da profundidade e a velocidade e diminuem a chance de impactos bruscos, principalmente em quem está começando, ou no início da penetração.

Ou seja, posições onde a pessoa receptiva controla o movimento tendem a ser mais confortáveis de início.

Atenção a sinais de alerta

Mesmo com cuidados, é importante observar sinais que merecem avaliação médica:

  • Sangramento persistente;
  • Dor que continua horas ou dias após a relação;
  • Saída de secreção pelo anus (muco, pus);
  • Febre;
  • Coceira persistente;
  • Sensação de “reto cheio” com dor;
  • Aparecimento de verrugas, feridas ou nodulações externas.

Esses sintomas podem indicar doenças orifíciais simples como fissura anal, trombose hemorroidária, ou até mesmo urgências como abscessos anais, infecções (ISTs).

Sexo anal e hemorroidas: pode ou não pode?

 Todos nós temos vasos na região anal, que são as “hemorroidas”. Isso não é proibitivo de relação anal desde que elas não estejam causando sintomas, ou seja, desde que você  não esteja apresentando dor ou sangramento as evacuações. 

Quem tem a “doença hemorroidaria” 

que eventualmente causa sintomas,  pode sentir mais desconforto. 

Dependendo do grau da doença hemorroidaria, a relação anal deve ser evitada e tratada com o coloproctologista. 

E mesmo paciente operados, desde que bem e sem sintomas, liberados pelos seus cirurgiões, podem sim ter relação anal desde tomados todos os cuidados previamente orientados. 


Cada caso é único. Por isso, a avaliação com o coloproctologista ajuda a orientar de forma personalizada e segura. 

Sexo anal pode causar câncer?

Existe uma chance maior de câncer de anus no sexo anal receptivo. Isso está relacionado a infecção pelo HPV (Papilomavírus humano), um vírus de transmissão sexual que pode levar a alterações celulares e posteriormente ao câncer de anus. Daí a importância do uso de preservativos e a vacinação contra o HPV.

A vacinação contra o HPV é altamente recomendada para proteger contra os tipos de HPV que causam câncer, tanto de anus, quanto de colo de útero. 

Respeito aos limites: talvez o ponto mais importante

Nem todas as pessoas conseguiram ter uma prática sexual anal plena. 

Nenhuma  prática sexual deve estar associada a dor, vergonha ou desconforto emocional.

Você tem o direito e autonomia sobre suas decisões e seus limites. Saiba utilizar-se disso com sabedoria e bom senso.
 

Informação é fundamental para o sexo anal seguro

Falar sobre sexo anal não incentiva a prática, incentiva a saúde.

Quando bem orientada, a relação pode ser mais segura e com menor risco de complicações.

A coloproctologia tem papel fundamental nesse processo: acolher pacientes, esclarecer dúvidas sem julgamento, orientar com base em ciência e ajudar cada pessoa a conhecer melhor o próprio corpo.

Se houver sintomas após a prática, desconforto frequente ou insegurança sobre como realizá-la, uma consulta especializada é o melhor caminho.