Colonoscopia sem medo: o que você precisa saber para fazer o exame com tranquilidade

A colonoscopia é uma das ferramentas mais importantes que dispomos para prevenção do câncer de intestino e para o diagnóstico de muitas doenças intestinais. 

Porém, ainda é um exame que desperta insegurança e receio em muitas pessoas.  

Vergonha, pudor, medo relacionado à dor, preocupação com o preparo, insegurança com a sedação e até mesmo o medo do resultado a ser encontrado,  fazem muitos pacientes adiarem o procedimento, às vezes por anos. 

Como médica coloproctologista, vejo diariamente o quanto esse atraso pode dificultar diagnósticos e atrasar tratamentos que seriam simples, se feitos no momento certo.

E o quanto um diagnóstico precoce do câncer de intestino faz toda a diferença na evolução e na sobrevida do paciente. 

Por isso, este blog foi criado para desmistificar a colonoscopia. Meu objetivo é mostrar, de forma clara e acolhedora, por que o exame é seguro, rápido, confortável e essencial para a prevenção de doenças importantes.

O que é colonoscopia e por que ela é tão importante?

A colonoscopia é um exame endoscópico que permite visualizar todo o intestino grosso, o reto e a parte final do intestino delgado (ileo terminal), com alta precisão. O aparelho de colonoscopia é um tubo flexível, longo (cerca de 175 a 185 cm), e com diâmetro de 1 a 1,3 cm. Possui uma microcâmera na ponta, o que permite a visualização de toda a superfície intestinal de forma ampliada (aumentos de até 200 vezes).

Através do exame, podemos identificar desde pequenos pólipos (que podem se transformar em câncer ao longo dos anos) até inflamações, pontos de sangramento, alterações anatômicas (divertículos), áreas de estreitamentos e outras condições que não aparecem em exames mais simples.

É por isso que a colonoscopia é o padrão ouro para prevenção do câncer colorretal. A grande vantagem é que, se um pólipo é encontrado durante o exame, ele pode ser removido imediatamente, evitando que evolua para algo mais grave, como o câncer, com o passar dos anos. É prevenção ativa e resolutiva, no momento certo.

Os medos mais comuns e por que eles não fazem sentido

Apesar de ser um exame seguro e previsível, a colonoscopia é um exame delicado, minucioso e que ainda carrega estigmas. Quase sempre, o medo vem do desconhecido, da falta de esclarecimento do médico solicitante. Veja os receios mais comuns e o que realmente acontece:

“Vai doer?”

Não. O exame é feito com sedação e monitorizado por um médico anestesiologista durante todo o tempo. A sedação permite que o paciente durma profundamente durante todo o exame, além de evitar algum desconforto abdominal que o exame possa causar.  

“O exame é seguro?”

Sim. A presença do anestesiologista durante o exame, monitoriza todos os sinais vitais (pressão arterial, saturação de oxigênio e frequência cardíaca), garantindo segurança para seu exame.  Em casos de pacientes mais idosos ou com comorbidades importantes, solicitamos uma avaliação cardiológica prévia. 

“Preciso de acompanhante?”

Sim. A presença de uma acompanhante  adulto e responsável é obrigatória no dia do exame devido ao uso de sedativos no paciente. O paciente não pode dirigir e nem realizar tarefas que exijam atenção ao longo do dia. 

“O preparo é terrível ?”

Os protocolos atuais são muito mais leves. As soluções são mais palatáveis, divididas em doses menores e com orientações personalizadas para tornar o processo menos desconfortável. O mais importante é você se informar corretamente sobre o preparo com antecedência, principalmente com relação a restrição dietética envolvida. O grande segredo é a hidratação ao longo do preparo, não só com água mas principalmente com solução de eletrólitos e glicose, pois isso evitará a desidratação e a hipoglicemia, responsáveis por queda da pressão arterial, tonturas, dores de cabeça. 

Paciente com mais “sensibilidade gástrica”, podem fazer uso de medicamentos antiemeticos antes do início do preparo, para evitar náuseas ou vômitos. 

“O exame tem riscos?”

As complicações são raras, mas podem acontecer. As mais graves seriam perfuração e sangramento, que podem ocorrer em menos de 1% dos casos. E isso geralmente ocorre nos procedimentos que envolvem retiradas de grande pólipos, ou pacientes portadores de doença diverticular muito grave. 

O importante é o paciente estar em mãos de médico capacitado realizando o exame, e pronto a identificar e tratar as possíveis complicações. A escolha do loval onde realizar o exame também deve ser levada em consideração, baseando-se em critérios de segurança, qualidade dos equipamentos e experiência de todos envolvidos. 

“Tenho vergonha.”

A equipe trabalha com técnica, respeito e privacidade. O corpo é coberto com campos estéreis e apenas a área necessária é exposta. É um procedimento médico, não motivo de constrangimento.

“Tenho medo de encontrar algo grave.”

O maior risco é não fazer o exame. Doenças identificadas no início têm maiores chances de tratamentos mais eficazes.

“Como funciona o dia do exame?”

Saber exatamente o que vai acontecer reduz a ansiedade. Veja como costuma ser o processo:

Ao chegar à clínica, você é acolhido pela equipe, e passa por uma pequena triagem. O médico anestesiologista e o médico examinador realizam também uma  avaliação, onde são transmitidas  informações sobre o procedimento, e realizados esclarecimentos de dúvidas. 

Em seguida, o paciente é posicionado na maca, monitorizado com colocação de cateter de oxigênio (não há necessidade de entubação!), oxímetro de pulso, eletrodos cardíacos e aferidor de pressão arterial. Punciona-se uma veia e inicia-se a sedação. A colonoscopia é realizada, com duração de 30 a 40 minutos em média. 

Em poucos minutos o paciente acorda, levemente sonolento, porém consciente e  permanece em observação por um curto período até ser reavaliado pela equipe e liberado.

Alguns pacientes podem apresentar  uma leve sensação de gases e distensão abdominal, devido a insuflação de ar necessária para a realização do exame,  que regride ao longo do dia. 

A modernização dos equipamentos tornou a colonoscopia ainda mais segura

A tecnologia trouxe grandes avanços para os exames de colonoscopia. Hoje contamos com:

  • Câmeras com resolução superior;
  • Sistemas de magnificação de imagem e realce de mucosa;
  • Aparelhos mais finos e flexíveis;
  • Inteligência artificial para detectar lesões pequenas.

Tudo isso aumenta a precisão do exame e a segurança, reduz riscos e torna o procedimento mais confortável.

“Quem deve fazer colonoscopia e quando?”

A recomendação geral é iniciar a colonoscopia preventiva aos 45 anos para ambos os sexos, mesmo para pessoas sem sintomas. Em casos específicos, como: na presença de história familiar de pólipos ou câncer, pacientes portadores de doenças inflamatórias intestinais, sintomas de sangramentos, anemia, muco nas fezes, alterações no hábito intestinal, afilamento das fezes, perda de peso sem causa aparente, o exame deve ser realizado o mais breve possível.

É importante reforçar que não é preciso ter sintomas para realizar o exame, muitas vezes. A idade acima de 45 anos já é indicativo do início da prevenção .

Mas, ficar atento aos sintomas e sinais de alerta acima citados é fundamental, pois a colonoscopia também é essencial nesses casos. 

O preparo: o passo que mais assusta, mas que pode ser leve

O objetivo do preparo é limpar o intestino para que o médico veja tudo com clareza. Mas a boa notícia é que existem várias formas de tornar esse processo mais fácil, como dietas enxutas no dia anterior, soluções de preparo fracionadas e orientações personalizadas.

Quando o preparo é bem orientado e bem feito, o exame é mais rápido, mais seguro e mais eficaz.

Colonoscopia salva vidas 

O câncer colorretal é o segundo câncer mais frequente no mundo, tanto em homens quanto mulheres, e um dos poucos em que podemos realmente fazer uma PREVENÇÃO.

Através do exame de colonoscopia, podemos identificar os pólipos, que são tumores benignos, semelhantes a “verrugas”, sendo que alguns sofrem alterações celulares ao longo dos anos (as diaplasias), se malignizando. Durante o exame, estes pólipos são prontamente removidos antes de se “tornarem um problema”.

Quando pensamos que um procedimento relativamente simples, indolor e rápido pode evitar uma cirurgia, uma quimioterapia, ou uma colostomia, isso é “salvar vidas”, e fica claro, que o medo não pode tomar o lugar da prevenção.

Se este texto tirou algumas de suas dúvidas e diminuiu um pouco o receio, considere agendar sua avaliação. Cuidar do intestino é cuidar da sua qualidade de vida, hoje e pelos próximos anos.