Alterações intestinais e anais no período gestacional e pós-parto: o que é comum, o que é alerta e como cuidar

As alterações anais no período gestacional e pós-parto são muito mais comuns do que se imagina, mas ainda pouco faladas. Muitas mulheres enfrentam sintomas desconfortáveis após o nascimento do bebê e, por vergonha ou falta de informação, acabam não buscando ajuda.

Se você passou por um parto recente e percebeu mudanças na região anal e na sua forma de evacuar, este conteúdo vai te ajudar a entender o que pode estar acontecendo e quando procurar um coloproctologista.

Por que acontecem alterações anais no pós-parto?

Durante a gestação e o parto, o corpo feminino passa por mudanças intensas que impactam diretamente a região pélvica e anal.

Entre os principais fatores estão:

  • Aumento da pressão intra-abdominal durante a gravidez causada pelo útero gravídico;
  • Ingurgitamento (dilatação) dos vasos hemorroidários por fatores hormonais e por compressão dos vasos pélvicos pelo útero;
  • Esforço no período expulsivo do parto normal;
  • Alterações hormonais que afetam a circulação e peristaltismo intestinal;
  • Constipação intestinal, muito comum no pré e pós-parto relacionados ao aumento da progesterona que lentifica o peristaltismo;
  • Trauma perineal (lacerações da própria passagem do bebê ou devido a uma episiotomia).

Esses fatores explicam por que as alterações anais ao final da gestação e no pós-parto imediato  são tão frequentes,  especialmente nas primeiras semanas.

Esses fatores também poderão estar relacionados, também, a complicações tardias na mulher, como veremos adiante.

Quais são as alterações anais mais comuns?

1. Doença hemorroidaria 

As hemorroidas são, sem dúvida, uma das principais alterações anais durante a gestação e no pós-parto.

Ao longo da gestação ocorre um progressivo aumento do útero, que comprime os vasos pélvicos, dificultando o retorno do sangue, e isso, consequentemente, leva a uma dilatação desses dos vasos hemorroidários já existentes.

Além disso, o hormônio da gravidez, a Progesterona, é relaxante muscular, por isso lentifica as contrações da musculatura intestinal, diminuindo o peristaltismo e o processo evacuatório. Assim, o esforço maior para evacuar, intensifica mais ainda a dilatação dos vasos hemorroidarios. 

Os sintomas comuns envolvem nodulações exteriorizadas e inchadas, com dor ou desconforto intensos, tanto ao evacuar quanto no repouso, além de sangramento.

2. Fissura anal

A fissura é uma pequena ferida na borda do anus, geralmente associada a evacuação de fezes ressecadas e duras, ou ao uso de papel higiênico. Ela causa dor intensa ao evacuar, ardência, sangramento e às vezes, prurido (coceira) na região.

É comum no pós-parto, principalmente quando há constipação associada.

3. Incontinência anal

É a perda involuntária de gases ou fezes, ou uma urgência evacuatória, onde a paciente tem ir rapidamente ao banheiro por medo de não conseguir “segurar” a tempo. 

No pós-parto imediato é raro, e geralmente associada a lacerações extensas no períneo, que se estendem a musculatura do anus, seja pelo próprio mecanismo do parto vaginal, com ou sem auxílio de fórceps, ou realização de episiotomias incorretas.

No entanto, mesmo que os sintomas não surjam na fase imediata pós-parto, a paciente pode vir a apresentar os sintomas mais tardiamente, após os 40- 50 anos de idade. 

Pode existir não só um comprometimento muscular dos esfíncteres anais, mas também um comprometimento neurológico, por um estiramento do nervo durante o trabalho de parto. 

4. Plicomas anais

São sobras de pele no anus que geralmente surgem após as crises de doença hemorroidária no período gestacional. Podem ser volumosos e causarem sintomas de dificuldade de higienização, desconforto local e incômodo estético. 

5. Dor anal persistente

Algumas mulheres relatam dor contínua mesmo sem lesões visíveis. Isso pode estar relacionado à tensão muscular do assoalho pélvico, cicatrização de traumas e alterações funcionais do mecanismo evacuatório (anismus).

O que fazer no período gestacional?

Cuidar do seu intestino para evitar as consequências da constipação intestinal. Dieta rica em fibras (frutas, folhas, cereais), ingerir muito líquido (lembrar que uma gestante está sempre “desidratada”) e não parar de fazer exercícios físicos diários. Ao perceber que suas fezes estão mais endurecidas ou evacuações menos frequentes, apesar das orientações acima, pode ser necessário o uso de laxantes suaves, que podem ser utilizados tranquilamente ao longo de toda gestação, desde que prescritos pelo especialista. 

Evitar também o uso de papel higiênico é fundamental, assim como evitar ficar muito tempo sentada no vaso para evacuar. 

Caso surjam sintomas anais, é importante também procurar o mais precoce possível um coloproctologista para avaliar e orientar a conduta adequada. 

O que é considerado normal no pós-parto?

Nem toda alteração precisa ser motivo de preocupação imediata. É esperado que, nos primeiros dias ou até meses pós-parto, haja ainda desconforto ao evacuar, sensação de pressão na região e ainda inchaço das hemorroidas. 

Os sintomas podem  melhorar progressivamente, juntamente com a regressão das outras alterações relacionadas a gravidez. Mas é importante manter todos cuidado possível para manter evacuações com fezes macias e sem esforço. 

Quando procurar ajuda?

Você deve procurar um coloproctologista se perceber:

  • Dor intensa ou persistente;
  • Sangramento frequente;
  • Muco nas fezes;
  • Afilamento das fezes;
  • Dificuldade para evacuar apesar dos cuidados alimentares corretos;
  • Perda involuntária de fezes ou gases;
  • Urgência evacuatória
  • Escape de secreção ou fezes nas roupas íntimas;

Ignorar sintomas intestinais e anais ao longo da gestação e no período pós-parto pode prolongar o desconforto, agravar o quadro e muitas vezes, deixar de se realizar um diagnóstico adequado da doença em questão.

Alterações anais no pós-parto têm tratamento?

Sim e, na maioria dos casos, o tratamento é simples e eficaz. Pode incluir ajustes na alimentação, uso de pomadas específicas, medicamentos, fisioterapia pélvica e, em casos mais selecionados, procedimentos cirúrgicos.

O mais importante é não normalizar seus sintomas. As alterações anais gestacionais e pós-parto fazem parte da realidade de muitas mulheres, mas não devem ser ignoradas nem tratadas como algo “normal que precisa ser suportado”.

Se você está passando por isso, não espere e procure sua coloproctologista de confiança!